quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Antiguidade Tardia, Resumo do Capítulo A Sociedade Romana Tardia do Livro A História Social de Roma, do Autor Géza Alföldy,

 Resumo do Capítulo A Sociedade Romana Tardia do Livro A História Social de Roma, do Autor Géza Alföldy, realizado pelo graduando em História Alan Cardoso Ferreira Santos.

Sobre o Autor:
Géza Alföldy nasceu na Hungria, estudou na Universidade de Budapeste onde em 1959, conquistou seu doutorado, é o autor de 30 livros.

 Sobre o Livro:
Data da primeira publicação: 1987, O autor analisa as mudanças estruturadas que se verificaram ao longo de um milênio, na República e, depois, com o Império. A ênfase da sua análise é colocada nos aspectos sociais.

 O que é Antiguidade Tardia?
Antiguidade Tardia denomina um período de tempo “ainda impreciso” que se localiza entre a Antiguidade Clássica e a Idade Média.



Condicionantes e Características Gerais:

 ... As condições sociais do “baixo império” assentavam-se em grande medida nas estruturas surgidas no período da crise, desde o final da época dos “Antoninos7” até “Diocleciano” (Crise do Século III d.C).
 Géza Alföldy defende a ideia de que as “sequelas” da Crise no século III d.C, permaneceriam até a “Queda do Império” em 476 d.C. Segundo ele, nos governos de Diocleciano (284-305) e Constantino o Grande (306-337), devido a “severas medidas” a situação econômica estava estabilizada até o reinado de Valentiniano I (364-375), mas, as consequências das transformações no século III já eram irreversíveis. Pág. 200

 A organização da antiguidade tardia não foi substituída por uma nova estrutura social, mesmo no século VI, quando o sistema de governo romano já não existia no ocidente. A transição da Antiguidade para a idade media, portanto, não foi repentina, mas fez-se através de uma larga faixa de transformações graduais em que, a queda do império romano, apenas consistiu em um ponto de viragem decisivo, na medida em que significava o colapso do enquadramento político da sociedade Romana. Pag.200.L 8.

Algumas cidades do império até conheceram um ultimo período de prosperidade, mas a produção de mercadorias e comercio jamais voltaram a atingir a prosperidade dos primeiros tempos da era imperial (...). A importância da agricultura como principal fonte de rendimento aumentou, ainda mais que anteriormente, mesmo sofrendo de fraquezas estruturais derivadas de vários problemas, entre eles a falta de mão de obra e por um tipo de agricultura pouco rentável praticada pelos colonos. Pág. 201. L. 01

As dificuldades econômicas aumentaram enormemente após a eclosão da nova crise política desencadeada pelas primeiras migrações sob pressão dos Hunos em (375). Essa crise provocou em pouco tempo a devastadora derrota de Roma para os “Godos” Em Adrianópolis (Pág.201.L13), “atualmente Edirne, na Turquia” no ano de (378). O desastre para o lado romano foi tanto que, em poucas horas, 20 000 dos melhores soldados do império perderam a vida. O próprio imperador Valente, muitos capitães, 35 tribunos, dois altos funcionários do palácio e dois generais pereceram no combate. (Wikipédia) Pág.201.L.9

Em 395 d.C, morre o Imperador Teodósio I, esse fato provocou modificações profundas: O Império Romano foi definitivamente dividido em dois, a parte Oriental ficou sendo administrada por Flávio Arcádio seu filho mais velho, e a parte Ocidental ficou com Flávio Honório (Ainda Adolescente), o Pai deles, Teodósio I, foi o último imperador a concentrar o governo das duas partes do Império Romano. Pág.203.Linha.09 e (Wikipédia)

 A parte ocidental administrada por Flávio Honório foi invadida pelos Bárbaros, tendo como resultado o abandono e a destruição de muitas cidades com terríveis consequências principalmente para a produção de mercadoria e comércio. Até ali jamais tinha ocorrido uma paralisação completa da produção e do comércio e a vida urbana nunca tinha cessado completamente em parte alguma do Império. Pág.201L.13

Já o império Romano do Oriente, Segundo o autor, se encontrava em condições sociais, em parte, mais favoráveis e menos ameaçadas pelos bárbaros, conseguindo “aguentar-se” e reformar, a pouco e pouco, o seu próprio sistema de governo. Pág.203.Linha.10

Esses acontecimentos provocaram mudanças nas relações entre a cidade e o campo, agora, esta ultima ganha protagonismo e autossuficiência, Segundo o texto, “Logo no século IV, as propriedades rurais adotaram a prática de suprir suas próprias necessidades de bens manufaturados, não através do comércio, mas do próprio fabrico”. Assim sendo os proprietários de latifúndios eram ainda mais importantes que anteriormente e constituíam a camada economicamente dominante da sociedade romana tardia tornando-se os mais pobres cada vez mais dependentes deles Pag.201. L.24

O autor ressalta que, apesar desse processo evolutivo se encontrar ligado à decadência do (Imperium Ramanum) não pode de modo algum ser atribuído exclusivamente a eles e a crescente pressão dos bárbaros, mas a causa ainda mais complexas, podendo as principais causas sociais serem incluídas no conceito de “ALIENAÇÃO” da sociedade romana em seu sistema estatal. Pag.201.L.31

 Para combater as dificuldades desse ultimo período da antiguidade só restava à monarquia imperial recorrer a uma política de força e de centralização, todavia, isso exigia um dispendioso aparelho de poder e, dada a escassez de recursos, o estado resolvia obrigando algumas categorias de trabalhadores a prestação de serviços e criando um complicado sistema fiscal exagerando na carga tributária o que fez alguns grupos da população a verem o estado como inimigo, até os proprietários de terra deixaram de se sentir representados pelo império. Pag.202.L.01

Segundo o autor, nos últimos tempos do Império o caráter despótico da monarquia acentuou-se, para os pagãos os imperadores continuavam sendo deus enquanto para os cristãos eles eram “governantes pela graça de Deus”, Mas não era essa diferença que afetava o caráter sagrado do imperador, mas sim a "infinita distancia que o separava de seus súditos”. O contato entre eles caracterizavam-se por um rigoroso cerimonial, muito influenciado por modelos orientais. Pág.202.Linha.14

Existia um imenso aparelho burocrático, conforme as reformas de Diocleciano e Constantino, o poder do imperador era garantido por mais de 435.000 homens, além de servidores privados do imperador, administração central e comandante militar administrativo como função no aparelho do estado. Eles tinham a missão de garantir a coesão do império e executar o sistema coercitivo de prestação de serviços e pagamento de impostos. Pág.202.Linha.27

O poder do império era sublinhado pelo fato do senado ter perdido sua importância. No século IV d.C, o regime encontrava-se forte para afirmar e manter a unidade do império, contudo a opressão exercida sobre algumas camadas da população levou a que se desligasse cada vez mais das raízes que o ligavam a própria organização social. (Pág.202.L.37)

O império com seu aparelho de estado tornaram-se assim (...). Um pesado fardo que oprimia a sociedade e ao mesmo tempo cerceava a evolução social. As migrações enfraquecia o Império que não mais podia proteger seus súditos do inimigo exterior. (Pág.203.L.03)

Nessas condições, diz o texto, as bases tradicionais da estratificação social do Império Romano Tardio tiveram que se alterar ainda mais do que no século III. Vejamos algumas características citadas pelo autor: (Pág.203.Linha.23)
* A diferença social entre os detentores do poder e os destituídos dele aumentou (Pág.203.Linha.34) .
* Poder real de grupos sociais condicionados a relação com o Imperador e não origem étnica (Pág.203.Linha.38) .
* Influencia de elementos da corte superior ao dos senadores vulgares (Pág.203.Linha.41).
* As pessoas mais influentes eram os membros do “Santo Consistorium” “Chefes mais altos do administrativo, generais e pelos mais privilegiados dignitários eclesiásticos”. (Pág.204.L02)
* Uso Obrigatório do vestuário adequado à categoria social a partir de lei do ano 382 em Constantinopla (Senatores, Milites, Officiales, Membros do aparelho administrativo civil e os servi).
* A partir de Constantino o Exercito passou a ser recrutado entre os Bárbaros principalmente Germanos. (Pág. 205L.01)
* Situação Jurídica Ganha Status Secundário * Cidadania Perde Importância * Diferença entre homens livres (Pobres) e escravo ganhou significado meramente teórico.
*Aumento significativo da origem pessoal na determinação da posição social
* Valorização de Capacidades Individuais (As estruturas governativas do Baixo Império Exigiam capacidades e méritos para ocupar cargos Burocráticos e na igreja).
 Aqui o autor afirma que a estrutura social do império nesse momento divergia bastante dos primeiros tempos e essa estrutura era muito semelhante a que se formou na crise do século III. (Pág.205 L32)

As Camadas Superiores
As Camadas Inferiores

A Sociedade Romana Tardia e a Queda do Imperium Romanum “Quem entre os Ricos não se esforça por expulsar o pobre da sua pequena propriedade, expulsar o necessitado do bocado de terra que herdou?... Os pobres são assassinados todos os dias”.
Ambrósio.

Esse questionamento de Ambrósio (Arcebispo de Mediolano um dos mais influentes membros do clero no século IV), reflete a situação de pobreza, falta de liberdade e opressão vividas pelo povo romano na eminência da queda do império. Pág.223.
A pobreza falta de liberdade e opressão sempre foram características de Roma em todas as épocas, todavia no final do império foram agravadas e a miséria e penúria atingiram camadas mais vastas.
Até mesmo as camadas superiores a partir do século III se viram relegados a um nível econômico e social e político próximo aos das camadas inferiores
Nesse período a camada populacional que vivia bem era restrita as tensões sociais eram fortes.
O Movimento de resistência rural mais generalizado foi o movimento “Agonístico” cujos participantes eram chamados “circumelliones” esses se juntaram também a colonos e escravos fugitivos, configurando-se em um forte movimento religioso e social que se dirigiam contra os ricos e, sobretudo contra a Igreja Católica. Pág.224L.19.

As causas das agitações nas cidades eram muitas: Escassez de: trigo, vinho (devido às más colheitas as dificuldades de transporte), conflitos políticos e corrupção. Em 356 a prisão de um condutor de carros muito popular gerou onda de ódio. A eleição de um Papa em 366 desencadeou motim. A deposição do Bispo Basílio pelo imperador Valente, a qual o povo era a favor do Bispo e Aumento de impostos. Todavia todos esses protestos, segundo o autor tinha uma única origem, as tensões sociais nas cidades causadas pela pobreza e a repressão brutal do estado. Pág.224L.37

O texto diz ainda que uma verdadeira revolução das massas rurais, naquele contexto era impossível (...), mesmo com todos esses motins e revoltas, segundo ele, nem a decadência do sistema de governo romano, nem a transição do sistema social do antigo para o medieval eram suficientes para isso. A ligação servil das massas de colonos aos grandes proprietários de terra não sofreu alterações, o objetivo dos colonos e dos escravos fugitivos não eram a formação de grupos para a luta contra os proprietários de terras, eles simplesmente fugiam de uma propriedade para outra na esperança de serem tratados de maneira melhor pelo outro senhor Pág.225L.29

Não havia, porém, (...) uma classe revolucionária homogênea, os diferentes grupos sociais tinham interesses diversos. As revoltas representaram um papel secundário no processo de dissolução do sistema de governo romano. A decadência do império romano do ocidente foi assim um processo cujo significado (...), não reside nas revoltas das camadas inferiores contra o sistema de governo apoiado pelas camadas superiores, mas no fato de a organização estatal de Roma se apoiar apenas numa camada, cada vez mais restrita do seu próprio aparelho, acabando por se tornar uma sobrecarga para toda a sociedade. Pag.226.L1

Apesar de Roma não se configurar em uma sociedade de castas, o sistema social era estático o que impunha aos comerciantes, colonos, entre outros o exercício compulsivo de uma profissão além da hereditariedade também compulsiva das posições sociais. No Tempo de Valentiniano III (424-455), fechou-se uma das poucas portas permitidas de ascensão social foi proibido que colonos escravos e comerciantes exercessem cargos eclesiásticos. Todavia, era possível ascender socialmente, essas restrições, não impediam que elas ocorressem na prática, inclusive, em clara contradição, no próprio aparelho do estado e no exército. (Pag 227, Linha 34).

 Havia ainda outros fatores de alienação da população em relação ao estado, assim como informado anteriormente as grandes propriedades de terra tornava-se cada vez mais independente e autossuficiente política e economicamente dentro do estado. O proprietário Rural Vivia em seu Latifúndio e ali na prática exerciam um poder absoluto, como por exemplo, julgar colonos ou nomear juízes para esse feito, com poder para penalizar inclusive com pena de morte. Pag.228.L6.

Principalmente a partir do século IV d.C, os grandes proprietários apoiavam-se cada vez mais em seu pessoal para resistirem inclusive aos ataques bárbaros, por vezes, aponta o autor, esses exércitos particulares combatiam com mais êxito que as tropas regulares, a única ligação entre essas grandes propriedades e o poder central se dava através das obrigações fiscais. Pag.228.L25

A alienação da população em relação ao império foi reforçada pelo chamado movimento dos patrocínios, que era uma forma de evasão ás injustiças e a sobrecarga fiscal por alguns camponeses independentes, colonos e até habitantes de aldeias inteiras, Citando Salviano (escritor cristão do século V) o autor explica como funcionava o (Patrocinium). (Pág.228L.37

Os indivíduos colocavam-se sob a proteção (Patrocinium) de uma pessoa influente do exército, administração civil ou de grandes fazendeiros a quem em troca entregavam primeiro com presente, depois com pagamento regular, produtos agrícolas ou dinheiro. Tratava-se de uma comunhão de interesses entre as partes que eram contrários aos interesses do estado. Pág. 229. L. 1

O Estado tentou "por cobro" ao movimento a partir de 368 d.C, a medida, assim como vários outros decretos não conseguiu deter o avanço dos “patrocinium” que acabou sendo legalizado em 415 d.C. O que significava que nem só a população das grandes propriedades, mas, toda a população dos distritos se "libertava" assim do sistema de governo imperial, chegando a haver numerosas comunidades urbanas que procuravam proteção através de processos semelhantes. Pág.229.L.10
O alastramento dos “patrocínios” teve para a monarquia imperial consequências piores que as revoltas isoladas, como o pagamento dos impostos “falhasse com frequência” (pag. 229. L 29), as fontes para manutenção do aparelho do estado estavam ameaçadas, foi necessário aumentar a tributação onde o sistema ainda funcionava, aumentando o descontentamento. Pág.229.L.27.
Mas houve círculos muito vastos, que tinham uma perspectiva diferente da visível decadência da odiada monarquia imperial. Preferiam viver sob o domínio dos Bárbaros, pois, nos estados territoriais germânicos o sistema de governo baseava-se em formas de dependência feudal e não num aparelho de poder opressivo e num sistema fiscal estatal. Pág.230.L.06
 Ao passo que crescia o numero de Romanos fugindo para territórios Bárbaros. Salviano (escritor cristão do século V), escreveu: "Procuram-se entre os Bárbaros a humanidade dos romanos, pois não conseguem suportar entre os Romanos a desumanidade Bárbara”. Pág.230.L.16
 Não só as forças destinadas a deter os bárbaros encontravam-se enfraquecidas como os próprios romanos se habituaram a considerar os bárbaros como um mal menor em comparação com o sistema estatal romano vigente, assim, segundo o autor, o império se viu obrigado a não só tolerar a fixação dos bárbaros em seu território, mas a também promovê-la em seu próprio interesse e assim, e conclui afirmando que agindo assim Roma cavara sua própria sepultura. Pág.230L.19
Vastas regiões do império ficaram desertas, pois uma parte da população fugiu para as grandes fazendas no regime de “patrocinium” e a outra parte fugiu para os territórios bárbaros.
Ambrósio escreveu: A morte era um destino comum, não só dos homens como também das cidades e das áreas rurais.
Com o agravamento do problema o império, na passagem do século IV para o V passou a promover a instalação de bárbaros nessas terras.
Outro problema era com o exército. Gradualmente tornou-se proibido o alistamento a todos os grupos populacionais e, também nesse caso, foi necessário recorrer aos bárbaros que ou integravam o exercito romano de maneira regular ou, como passou a ser usual, a partir do século IV, eram contratados, no regime de confederados (foederati), organizados em grupos de guerreiros da “própria raça”. Pág.230L.37
A instalação de grupos Germânicos no império destruiu a infraestrutura existente do sistema de governo imperial, todavia a coexistência da população romana e germânica funcionava ao contrario do que se podia esperar, em função das diferenças culturais e linguísticas, sem grandes atritos.
O sistema de valores religioso e ético comum a romanos e bárbaros, o cristianismo, contribuiu decisivamente, no século V, para a aceitação dos Germanos pela população local, o cristianismo não provocou segundo o autor a decadência do sistema de governo romano, segundo ele, o patriotismo dos romanos cristãos, de maneira geral, não era inferior ao dos contemporâneos pagãos. Pág.231L.31
O papel do Cristianismo na decadência de Roma Ocidental resultou mais do fato de ter sido adotado e seguido também pelos germanos. “Anteriormente o sistema de valores da sociedade Romana tinha sido o “Mos Maiorium” costume dos ancestrais” que erguera uma fronteira intransponível entre romanos e não romanos.
Agora os romanos cristãos partilhavam com o bárbaro cristão a sua religião e sua ética, os bárbaros em função da cristianização já não era mais inimigos (Hostes), mas, irmão (Fratres), segundo a visão de Orósio, historiador e teólogo, Romanos e Germanos, viveriam em conjunto, em seu sonho era um império cristão e seu futuro estava na constituição de estados territoriais governados por germanos, chamado: A ROMANIA. (Roma + Germânia)
A estrutura da sociedade não se modificou, pelo contrário, foi reforçada pelo alastramento de formas de dependência de tipo feudal entre os grandes proprietários e vastos grupos da população. O antigo enquadramento político tornou-se cada vez mais anacrônico devido a essa evolução, até que se desagregou.
Os Hunos foram inimigos implacáveis dos Romanos, Esses conflitos viriam culminar com as ações de Átila, o mais famoso rei Huno, a batalha mais importante entre esses impérios foi ocorrida nos “Campos Catalaúnicos)” em 451 d.C, essa batalha foi vencida por Roma e seus aliados, mas Átila "e seu soldado Orestes" sobreviveram e ainda causou muitos prejuízos a Roma, justificando se apelido de praga oi flagelo de Deus. Há ainda a narrativa de que ao atacar Roma em outra ocasião, tendo como pretexto tomar a mão da irmão do imperador em casamento, Átila só parou diante da intervenção do papa Leão, fazendo-o recuar e parar com os ataques. (Wikipedia)
O fim da antiga estrutura política foi assinalado pela morte de Orestes, General do Exército Romano e a deposição do “último imperador do ocidente”, seu filho Rômulo Augusto, pelo chefe mercenário germânico Odoacro no ano de 476 d.C.
Em 474 d.C o Imperador do Oriente Leão I, envia Júlio Nepos (Sobrinho em Latim), marido de sua sobrinha, para render Glicério (Eleito pelos Germânicos em 473 d.C), sem o choque militar, Nepos depôs Glicério nomeando-o bispo de Salona na Dalmácia. Uma vez Imperador do Ocidente, Nepos Em 475 d.C, nomeia Flávio Orestes “Magister Militum”, espécie de auto General, (Orestes tinha origem bárbara, mas educação romana), nesse mesmo período, Odoacro, também bárbaro cujo pai a exemplo de Orestes, tinha Servido ao Imperador Átila “O Huno”, era líder de uma milícia Bárbara que servia ao Império. Nepos envia Orestes á Gália (?), Orestes não cumpriu a ordem e volta a Ravena a procura o Imperador Nepos e não o encontra, Nepos foge para a Dalmácia (Continua a Reinar?). Em Ravena Orestes Nomeia se filho Romulus Augustus que tinha idade entre 15 e 18 anos, no entanto alguns grupos de mercenários Bárbaros que eram pagos pelo Império exigiu terras dentro do território do Império, Orestes não aceitou, esses grupos aliaram-se a Odoacro para lutar e matar o regente imperial Orestes. Todavia poupou a vida do seu filho, o “imperador” Rômulo Augusto. Assim, o Bárbaro Odoacro tornou-se rei, marco que a historiografia localiza como fim do Império Romano Ocidental.

O autor conclui apontando semelhanças entre a crise que levou a queda da República (27 a.C), com a que pôs fim ao Império (476 d.C), segundo ele, tanto em caso quanto no outro as estruturas básicas da organização social vigente não se modificou e apenas ruiu um sistema político obsoleto. Enquanto sobre as ruínas da República se ergueu um novo sistema estatal tão romano quanto o anterior, após a queda do império Romano do Ocidente o papel deste coube a novos Estados.
O historiador húngaro Géza Alföldy, foi um gigante intelectual, que gostava de reunir estudantes ao seu redor para discutir documentos de forma exaustiva, mostrando todas as dificuldades na sua interpretação, todas as possibilidades e tudo o que eles ofereciam. Alföldy faleceu de um ataque cardíaco durante uma visita à acrópole, em Atenas: Uma partida “Conveniente” para a de alguém tão interessado em antiguidade.
Fontes:
 A Historia Social de Roma (Géza Alföldy).
Wikipédia, a enciclopédia livre.
Pesquisa e Organização: Alan Cardoso

Estudante de Licenciatura em História pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Algumas Questões Sobre o Primeiro Capítulo do Livro: A Produção do Fracasso Escolar, Histórias de Submissão e Rebeldia da Autora: Maria Helena Souza Patto.

Questionário sobre o capítulo 1, intitulado: "Raízes Históricas das concepções sobre o fracasso escolar: O Triunfo de uma Classe e Sua Visão de Mundo", que é parte do livro de Maria Helena Souza Patto: "A produção do fracasso escolar Histórias de submissão e rebeldia".

01 - Como a Autora Aborda o Surgimento dos Pobres na Sociedade Moderna?

A autora na realiza, na “pág. 29” uma minuciosa explicação do período de transição entre a passagem das sociedades feudais para as sociedades capitalistas na Europa, sugerindo “esse evento” como um dos responsáveis pelo surgimento do que hoje popularmente chamamos de “pobres” a mesma, já na pág. 32, desenvolve sua tese contextualizando sua afirmação, diz: “os antigos artesãos e camponeses vão perdendo suas condições anteriores de produtores independentes e de agricultores que ocupam e cultivavam a Gleba, destituídos de seus instrumentos de produção de sua matéria prima e da terra para cultivar suas condições de vida tornaram-se insustentáveis”, Patto, afirma também que neste momento o acometimento de pestes e eventos climáticos, tornam o quadro ainda mais dramático, (...) São eles que vão agora integrar os grandes contingentes famintos que se acumularam nas cidades e que veio a se tornar um tipo de trabalhador ainda inédito na história da humanidadeo trabalhador assalariado, que vende no mercado de trabalho o único bem que lhe resta a energia de seus músculos e cérebro. São eles que vão formar o contingente dos trabalhadores da indústria e as populações pobres das cidades, submetidos a um regime e a um tipo de trabalho que lhes eram estranhos, mas, dos quais não podiam fugir, são eles que vão trabalhar nas máquinas e na indústria extrativa de sol a sol, em troca de salários aquém ou no limite fisiológico da sobrevivência.

02 – Como Patto Caracteriza o Trabalho Alienado?

A autora localiza as origens do Trabalho Alienado no momento em que o produtor começa a ser destituído dos meios de produção e começa a produzir para outrem. E ainda, quando os homens começam a dividir-se em proprietário exclusivo das máquinas e da matéria prima e trabalhadores que não as possuem. As relações de produção que assim se estabelecem fazem parte da própria natureza do modo de produção que começa a vigorar. Dando base a seu argumento a autora cita Marx: “No primeiro manuscrito Econômico e Filosófico, Marx (Em Fromm 1970), propõe-se a desvendar a verdadeira natureza desse trabalho, dessa forma de trabalho na qual:
*A - o Trabalhador se sente contrafeito na medida em que esta atividade não é voluntária, mas lhe é imposta, é trabalho forçado.
* B - O trabalho não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio para satisfazer outras necessidades.
* C – O Trabalho não é para si, mas, para outrem.
* D - O trabalhador não se pertence, mas sim a outra pessoa.
A autora continua, o Caráter Alienado desse processo de trabalho fica patente, segundo Marx, pelo fato de que sempre que possível ele é evitado, trabalhar nestas novas condições da indústria capitalista significa mais do que sacrificar-se, significa mortificar-se, de vida produtiva o trabalho reduz-se a meio para a satisfação da necessidade de manter a existência, esta identificação com a atividade vital é característica do animal que não distingue a atividade de si mesmo, ele é sua atividade. Já o homem faz de sua atividade vital um objeto de sua vontade econômica.

03 – Porque a Autora Afirma Que Houve “Desintegração de Uma Aliança Social” a partir da segunda metade do século XIX?

Pág 35: A autora interpreta a ruptura entre burguesia e proletariado como desintegração de uma aliança, a mesma explica que: Durante o século XVIII e nas primeiras décadas do século seguinte a burguesia foi porta voz do sonho humano de um mundo igualitário fraterno e livre. Com o passar do tempo o proletariado viu a sua reação começar á “ser expressada” através de formulações teóricas socialistas e os vários tipos de governo reformista que se sucediam tinham apenas o objetivo de defender os interesses da burguesia das pressões revolucionárias socialistas e monarquistas. A autora sugere aqui um abandono por parte da burguesia da luta por uma igualdade de condições social almejada pela classe trabalhadora, e continua, em meados do século XIX o sonho havia acabado para alguns setores mais conscientes do proletário e para seus intelectuais orgânicos. A ruptura entre burguesia e proletariado, porém não se daria exceto na Grã Bretanha, antes de 1848, todavia, segundo (Hobsbawm, 1982, p.139), em torno de 1830 um movimento socialista e proletário era visível na Grã-Bretanha e na frança; uma massa de trabalhadores pobres via nos reformadores liberais seus prováveis traidores e nos capitalistas seus inimigos seguros



04 – Quais as Relações entre o Ideário e o Positivismo?

O Ideário Iluminista convergia com as ideias do positivismo, uma vez que o positivismo defende que a ciência é a única forma de conhecimento verdadeiro. Patto afirma que o Ideário Iluminista se fortaleceu com o visível progresso ocorrido na produção e no comércio, a autora afirma ainda que essa ideologia encontrou maior receptividade e entusiasmo entre aqueles mais diretamente beneficiados pela nova ordem econômica e social em ascensão: Os círculos mercantis os financistas e os proprietários além dos administradores sociais e econômicos aliados a esse espírito científico.

05 – Patto Afirma que Houve Uma Contradição Básica no Século XIX. Que Contradição é Essa? E Como as Ciências Humanas Buscam Responder a Ela?

A autora explica na página 38 de seu texto que, o que ela chama de Contradição Básica no Século XIX, deu-se no momento em que a sociedade Burguesa atingiu seu apogeu, passando a segregar cada vez mais o trabalhador braçal e se tornando inflexível na admissão dos “que vêm de baixo”. No nível político e cultural mantém-se vivo a crença na possibilidade de uma sociedade igualitária, num mundo onde, na verdade, a polarização social é cada vez mais radical entre as pequenas conquistas de uma minoria do operariado e a acumulação de riqueza da alta burguesia cavara-se um abismo que saltava os olhos, justifica-los seria a tarefa das ciências humanas que nascem e se oficializam neste período.

06 – Quando Surge Uma Política Educacional Em Sentido Estrito e Qual o Papel da Escola Nesse Contexto?

A pesquisa histórica revela que uma Política educacional em “Seu Sentido Estrito” tem início no século XIX e decorre de três vertentes da visão de mundo dominante na nova ordem social: De um lado a crença no poder da razão da ciência, legado do iluminismo, de outro, o Projeto liberal de um mundo aonde a igualdade de oportunidades viesse a substituir a indesejável desigualdade baseada na herança familiar; finalmente a luta pela consolidação dos estados nacionais, meta do nacionalismo que impregnou a da política europeia no século passado. Mais do que os dois primeiros a ideologia nacionalista parece ter sido a principal propulsora de uma política mais ofensiva de implantação de redes públicas de ensino em partes da Europa e da América do Norte nas ultimas décadas do século XIX

07 – Caracterize as Teorias Racistas Que Ganharam Notoriedade no Final do Século XIX e Início do Século XX na Europa.

Pag 52 No nível das ideias, a passagem sem traumas da igualdade formal para a desigualdade social real inerente ao modo de produção capitalista dar-se pela tradução das desigualdades sociais em desigualdades raciais, pessoais ou culturais, no entanto segundo Hobesbawm a tendência em atribuir a pobreza a uma inferioridade inata e os piores abusos das teorias racistas só se darão após os anos cinquenta de século XX, ainda segundo o texto a França era o berço das teorias do determinismo racial que começam a ser formuladas logo após o triunfo da revolução burguesa ainda no final do século XVIII, logo após os debates raciais iniciaram-se na Grã Bretanha, e ali ao contrário da frança encontrou alguns obstáculos, sobretudo o pensamento cristão (...). A adesão às teorias anticlericais e ao colonialismo e ao cientificismo permitiu que estereótipos e preconceitos milenares adquirissem status de conhecimento neutro da ciência experimental e positiva a providencia foi substituída pela fisiologia, ciência experimental e positiva que se voltou para a questão das diferenças raciais individuais. A divulgação mais ativa das ideias racistas dar-se a partir dos primeiros anos do século XIX e seu prestígio atinge o ponto mais alto entre 1850 e 1930, Cabanis (1757-1808) médico e filósofo Frances foi um dos mais influentes desse pensamento defendendo teses poligenistas segundo a qual a origem dos humanos é “múltipla” o que autoriza a conclusão de que existem raças anatômicas e fisiologicamente distintas e por isso mesmo psiquicamente desiguais.
Essas teses contrariam a tese monogenista da igreja católica de que todos os homens foram criados a imagem e semelhança de Deus e a origem mítica de que todos os seres humanos tem adão como pai comum.
As teorias antropológicas de Cabanis se fará sentir por pelo menos cento e trinta anos seguintes, a afirmação da desigualdade das raças com base em teses antiquíssimas sobre a relação entre clima temperamento e em sua crença na herança de caracteres adquiridos é um denominador comum entre as teorias racistas formuladas em várias partes do mundo até pelo menos os anos trinta do século XX.


08 – O Que Sir. Francis Galton (1822 – 1911) em suas Atividades Intelectuais, Especialmente na Obra (Hereditary Genius), Pretendeu Demonstrar? Como Sua Teoria se Relaciona Com o Darwinismo?

Sir. Francis Galton, segundo a autora na pág. 58 contribuiu significativamente para o desenvolvimento de noções de distribuição normal, significância estatística e correlação da psicologia experimental, colaborando ainda para criação de “testes psicológicos” que tinham como objetivo principal medir a capacidade intelectual e comprovar a sua determinação hereditária, Sir. Galton era um dos principais adeptos das teorias de Charles Darwin, Galton foi o primeiro a realizar a transferência (Transplante) dos princípios evolucionistas de variação, seleção e adaptação das espécies para os estudos das capacidades humanas. Em seu Livro "Hereditary Genius" Galton tem um objetivo claro, demonstrar que as aptidões naturais humanas eram herdadas exatamente da mesma forma como os aspectos constitucionais e físicos de todo o mundo orgânico. Galton, portanto desejava provar que a genialidade era herdada e segundo Patto todo o restante de sua obra era voltada para esse fim. Teses como as de Galton são contestadas e conforme Hobsbawm no próprio texto, a preocupação com as diferenças individuais e seus determinantes (...) só poderia ocorrer no âmbito da ideologia da igualdade de oportunidades enquanto característica distintiva das sociedades de classe.

09 – Qual a Relação Entre a Psicologia Diferencial e a Eugenia? Aqueles Que Defendiam a Eugenia Eram Necessariamente de Má Fé?

Pag. 58 A existência de uma viva relação entre Psicologia Diferencial e Eugenia pode ser observada em alguns aspectos. A psicologia diferencial é definida no texto como: "A psicologia que se quer investigação quantitativa e objetiva das diferenças existentes entre indivíduos e grupo”. Já a Eugenia é resumida como “ciência que visava controlar e dirigir a evolução humana “aperfeiçoando a espécie” através do cruzamento de indivíduos escolhidos para este fim”. Ambos os procedimentos convergem para a ideia do determinismo racial. Um com a ideia de determinar a real existência de diferenças entre indivíduos e a outra trabalhando com a possibilidade de potencialização e desenvolvimento das qualidades individuais de cada pessoa ou grupo. Na pág. 60, podemos observar a ideia de que o mundo da classe média estava livremente aberto para todos, portanto os que não conseguiam cruzar seus umbrais demonstravam entre outras coisas uma herança racial. Segundo o texto, ambos os procedimentos foram profundamente influenciados por Sir Francis Galton (1822-1911) que fundou a Eugenia e colaborou com o desenvolvimento da psicologia diferencial fundada pelo laboratório alemão Wundt em 1879. As ideias de Sir Galton marcaram época na psicologia, sua influencia em relação aos testes mentais foi marcante no século XIX, sendo seguidos por muitos outros profissionais como Cattell e Anne Anastasi, citados no texto. Não podemos considerar que seguir ideias como as difundidas por Galton se tratava necessariamente de má fé, afinal na época o mundo vivia o anticlericalismo e seus métodos que envolviam testes e experimentos “Científicos”, nesse contexto, dava alguma ideia de confiabilidade.

10 – Na Virada Para o Século XX e Em Suas Primeiras Décadas Quais Explicações Foram Propostas Pelas Teorias Psicológicas Para Explicar o Fracasso Escolar No Brasil?

As explicações para o desnível de aprendizagem e FRACASSO ESCOLAR NO BRASIL movimentaram intelectuais e profissionais da área no decorrer do século XIX, todavia os métodos de pesquisa para se obter tal resultado eram essencialmente estrangeiros, podemos citar por exemplo a incorporação de alguns conceitos psicanalíticos que mudaram não só a visão dominante de doença mental como as concepções correntes sobre as causas das dificuldades de aprendizagem
Passaram a ser consideradas a influencia ambiental sobre o desenvolvimento da personalidade nos primeiros anos de vida além do aumento da importância atribuída à dimensão afetivo emocional na determinação do comportamento e seus desvios. Essas mudanças provocaram uma mudança terminológica no discurso da psicologia educacional, como exemplo podemos citar as crianças que apresentava problemas de ajustamento ou de aprendizagem escolar que anteriormente eram chamadas de anormais passou a ser designada como Criança problema.
Publicações dos anos trinta operavam mudanças nas concepções das causas das dificuldades de aprendizagens escolares: Se antes, elas eram decifradas com os instrumentos de uma medicina e de uma psicologia que falam em anormalidades genéticas e orgânicas agora o são com os instrumentos conceituais da psicologia clínica de inspiração psicanalítica que buscam no ambiente sócio Familiar as causas dos desajustes infantis (...). As causas do insucesso escolar agora vão desde as físicas até as emocionais e de personalidade passando pelas intelectuais.


12 – Em Que Consistia a Teoria da Carência ou Privação Cultural? Qual a Sua Relação com As Práticas de “Educação Compensatória”?

Pag. 71, A ideia de carência social começou a ser desenvolvida a partir de um momento da história em que falar de questões de raça de maneira explícita iniciou a causar constrangimentos, E consistia na tentativa de justificar o desnível de escolaridade entre os ricos e os pobres. Nesse contexto surge como ponto importante a ideia de "ambiente". Tratava-se da instrumentalização da visão etnocêntrica e biologizada de cultura, levando-se em consideração os valores típicos das classes dominantes que eram tidas como as mais adequadas a um bom desenvolvimento psicológico.
Esther Milner, psicóloga Americana publicou em 1951 um estudo experimental cujos resultados encontram-se entre as afirmações chave da teoria da CARENCIA CULTURAL que serviram de base a inúmeros programas de intervenção desenvolvidos no decorrer dos anos sessenta. A Teoria da Carência Cultural é marcada por uma visão etnocêntrica e preconceituosa em relação aos pobres, um exemplo é afirmar que diferentemente da criança rica a criança pobre ao entrar na escola sente falta de uma atmosfera afetuosa e positiva se deparando, segundo ela, com a figura de um adulto hostil que não favorecia em momentos de refeição, por exemplo, conversas espontâneas assim como nas classes elevadas, ela conclui mais a frente que certos aspectos da vida familiar das classes pobres tendem a minar a autoconfiança e desencorajando o desenvolvimento intelectual empatando em uma realização escolar inferior por parte das crianças da classe baixa.
Este estudo traz ideias já abordadas em 1931, pelo autor Buhler, que já abordava o tema de forma similar. Patto afirma que é impressiona o fato desses pesquisadores não perceberem que a própria precariedade dos instrumentos de avaliação e de observação podem ser os responsáveis pelos resultados negativos, ela aborda que não lhes ocorreram que, com um pesquisador a mesa de refeições o comportamento das classes podem sofrer alterações com os mais ricos comportando-se da maneira que é socialmente valorizada, em contrapartida, mais inibida os mais pobres podem agir sem essa preocupação.
Partindo de estudos como esses surgem então ás chamadas Práticas de Educação Compensatórias, que supostamente reverteria ás diferenças ou deficiências culturais e psicológicas de que as classes menos favorecidas seriam portadoras, fazendo renascer a esperança na justiça social, mais uma vez graças ao papel democratizante atribuído a Escola Compensatória.

13 – Observe o Trecho Abaixo:

(...) E a interpretação tida Como verdadeira é a que dissimula e oculta, com maior sutileza, que as divisões sociais são divisões de classes o que equivale a afirmar sua condição ideológica, aqui entendida como: Um conjunto lógico sistemático e coerente de representações (Ideias e Valores) e de normas ou regras (De Conduta)... Cuja função é dar aos membros de uma sociedade dividida em classes uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas e culturais sem jamais atribuir tais diferenças a divisão da sociedade em classes “Chauí (...), Patto Pag 51”.

Porque se podem dizer que as Teorias Psicológicas e Sociológicas do Século Possuem Caráter Ideológico?

Uma vez que as teorias Psicológicas e Sociológicas, apresentadas nesse primeiro capítulo do Livro, não conseguiram, na sua condição de ciência, identificar causas e motivos que efetivamente pudessem elucidar, bem como ajudar a minimizar os efeitos do claro desnível de aprendizagem escolar nas diferentes classes sociais, podemos sugerir que os diagnósticos emitidos por elas poderiam estar atendendo a uma necessidade de explicação do problema que atendesse aos interesses daquela sociedade, herdeira da Revolução Burguesa, que a partir do século XVIII foi porta voz do sonho humano de um mundo igualitário fraterno e livre, portanto fazia-se necessário justificar o desnível escolar entre pobres e ricos sem que a as mesmas jamais pudessem ser associadas ás diferenças sociais e a divisão da sociedade em classes, a ideia de meritocracia, isto é do sucesso a partir do esforço individual também precisava ser mantida para dar um caráter de normalidade as gritantes diferenças no aprendizado, impedindo assim, através da responsabilização da própria classe pobre pelos seus fracassos, a ocorrência de revoltas e motins. Tendo, portanto, como base o conceito de ideologia sob o viés trabalhado em sala, em que a realidade dos fatos é dissimuladamente omitida sendo oferecido em troca um conjunto lógico sistemático e coerente de representações cujo objetivo é dar aos membros de uma sociedade uma explicação racional para as diferenças sociais, (EDUCACIONAIS), políticas e culturais, podemos, sim, afirmar, com certa segurança o caráter ideológico com que as Teorias Psicológicas e Sociológicas se deixaram utilizar no contexto exposto no livro.


Alan Cardoso

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Fichamento da Resenha do Professor Manoel Salgado (Teoria/UFRJ) ao livro: REVEL, Jacques (org.). Jogos de Escala: a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998.

O documento tem início, Pág. 217, ressaltando o protagonismo Francês no que diz respeito ao esforço de rever discutir e avaliar os parâmetros da pesquisa histórica, diz o texto: “A produção historiográfica francesa é particularmente rica de balanços e avaliações sobre a produção em nossa disciplina como parte de um esforço sistemático para rever e discutir os parâmetros da pesquisa histórica”. “E, ainda na mesma página o autor afirma que pensar sua própria história é importante e explica:” Pensar sua própria história pode assim significar um exercício de legitimação para uma comunidade de profissionais, cuja identidade encontra-se fortemente assentada e construída a partir de lugares socialmente definidos de produção desse conhecimento, com suas regras próprias de consagração.
Mais á frente, também na página 217, podemos observar que o autor propõe que Pensar sua própria história pode ainda atender a necessidade de contínuas reflexões e de contemplação de demandas sociais: “Pensar sua própria história” Pode também responder às exigências contínuas de uma reflexão sistemática sobre os métodos e o lugar da teoria na produção do conhecimento histórico como forma de responder satisfatoriamente aos desafios, tanto da pesquisa histórica em sentido restrito, quanto das demandas sociais postas pela contemporaneidade das sociedades altamente industrializadas.
Aqui o autor destaca a importância do trabalho de Jacques Revel “Historiador Francês” além de sua atuação na Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais. O trabalho organizado por Jacques Revel “Jogos de Escala” parece compartilhar desta tradição, assim como contribui para legitimar um viés da pesquisa histórica, hoje com largos espaços de reconhecimento nos seminários da “École des Hautes Études en Sciences Sociales”, onde alguns dos participantes da obra coletiva dirigem seminários de pesquisa, ainda que seus começos estejam associados à historiografia italiana e a nomes como o do historiador Carlo Ginzburg e Giovanni Levi.
Manoel Salgado Guimarães, na página 218, afirma que o Livro de Ravel, Jogos de Escalas, entre outras coisas, traça um rico painel dos problemas envolvendo a micro-história: Resultado das discussões levadas a cabo na própria École, propondo uma reflexão em torno da relação Antropologia e História, o livro “Jogos de Escalas” traça um rico painel dos problemas envolvendo a micro-história, permitindo ao seu leitor um primeiro contato com o universo de questões subjacentes a esta modalidade da pesquisa histórica, situando seu desenvolvimento num quadro historiográfico propriamente dito, assim como sublinhando tradições filosóficas a que este tipo de procedimento, implícito no micro-história, se reporta.
Ainda na página 218, Salgado afirma que dentro do contexto exposto anteriormente se pode se observar à reedição do debate entre a Antropologia e a História, protagonizado por Lévi Strauss e Braudel, desta vez, segundo ele, com a “vitória” do olhar antropológico na pesquisa histórica: Na verdade, assistimos à reedição de um velho debate entre a Antropologia e a História, inaugurado de forma exemplar com Lévi Strauss e Braudel, ainda nos finais dos anos 50, mas que evidentemente se reveste agora de características totalmente diversas, consagrando definitivamente a vitória de um certo olhar antropológico na pesquisa histórica.
A ideia de protagonismo da Antropologia sobre á micro-história também é defendida pelo historiador italiano Edoardo Grendi na página 218, em artigo para o livro, afirma que: abordagem micro-histórica estaria indelevelmente marcada pelo signo da antropologia na medida em que educou seu olhar para ver o passado a partir de uma perspectiva de estranhamento, vendo-o como efetivamente uma terra estrangeira, numa formulação que sugere o título da obra de David Lowenthal, The Past is a foreign country (O passado é um país estrangeiro).

O autor localiza o ano de 1989 como um ano simbolicamente marcado por eventos de profundas significações para a pesquisa histórica (...), comenta ainda que no referido ano (1989), a tradição hegemônica herdada pela escola doa Annales sofre profundas críticas (...). E Conclui: É neste quadro de crítica da tradição herdada que a micro-história emerge, apontando novas possibilidades para o trabalho do historiador, que ainda reafirmando a história como social, procura sofisticar e redimensionar a pesquisa a partir de procedimentos que questionam as antigas concepções da história social.

Na página 2019 o autor afirma que a historiografia francesa responde ao Giro Linguístico “linguistic turn” com o “tournant critique” Giro Crítico, e aponta que o reconhecimento e legitimação proporcionados à micro-história integram este movimento mais amplo de repensar os caminhos da pesquisa histórica. Aqui o autor traz novamente a posição de Edoardo Grendi, sugerindo que o mesmo colabora no sentido: de compreender a prática do micro-história como particular ao quadro intelectual da historiografia italiana, representando uma via italiana de uma história social mais elaborada uma espécie de alargamento de horizontes para o trabalho do historiador.
Salgado informa que a resposta para a pergunta, De onde teriam os historiadores italianos buscando suas sugestões para o projeto de uma reescritura da história liberta das hierarquias e definições de uma história feita à maneira tradicional, pode está no artigo: artigo de Paul-André Rosental, “Construir o macro pelo micro”: Frederik Barth e a microstoria. O autor sublinha as possíveis sugestões contidas no trabalho do antropólogo norueguês e que estimularam as reflexões dos historiadores italianos, Ao valorizar o conjunto de variantes comportamentais, Barth aponta para a importância dos contextos decisórios que põem em relação atores sociais num jogo relacional complexo (...). Esta sensibilidade parece marcar profundamente os micro-historiadores.
Na página 220 o autor continua... Ainda a partir das sugestões do antropólogo norueguês, segundo o artigo de Rosental, os historiadores italianos do micro-história incorporaram uma certa dimensão de incerteza e imprevisibilidade presentes nas ações humanas e necessariamente consideradas como parte da análise histórica. O autor considera central o fato de que: A micro-história se coloca em frontal oposição à perspectiva das análises macro-históricas, que situavam a possibilidade de explicação dos fenômenos históricos a partir da localização de causas situadas num plano macroestrutural... E conclui... Ataque frontal a um dos pressupostos mais caros da história social francesa à maneira dos Annales (...). Afirma ainda, não se trata apenas de uma mera diferença de escala tomada para a análise dos fenômenos históricos, mas um redimensionamento de objetos e questões que põem em dúvida as certezas estabelecidas pela história social de corte marcadamente macroestrutural. Mais a frente ainda na página 220 o autor cita Bernard Lepetit e seu texto “Sobre a escala na história”, no livro organizado por Revel, onde afirma a necessidade imperiosa da escolha da escala como condição mesma para o conhecimento que se pretende.
Na página 221 é exposto que a escolha de uma escala engendra objetos que não existem como entes substantivados no mundo. Desta maneira, Lepetit formula uma das críticas mais contundentes a um realismo simplista do trabalho do historiador, assegurado pelo registro deste real em fontes consultáveis. Ainda na página 221 do texto do Manoel Salgado cita o autor: Marc Abélès, definindo seu trabalho: O Racionalismo Posto à Prova da Análise como: Particularmente interessante e estimulante, Partindo de rápidas considerações a respeito do lugar das análises microscópicas entre os antropólogos, que por vezes chegam mesmo a fetichizar o micro como sendo o lugar do desvendamento pleno dos fenômenos sociais. Aqui é chamado a atenção para o fato de que: O debate em torno da micro-história obriga-nos a repensar os rígidos cânones de uma interpretação cartesiana da racionalidade e dos procedimentos decorrentes desta forma particular de racionalidade. Mais a frete é chamada a atenção para o texto: Escala, Pertinência, Configuração de Maurizio Gribaudi que, segundo o autor, (...). Constrói a partir de uma crítica à perspectiva de história social apontando para os riscos de se tomar os documentos com o sentido de uma evidência imediata, vendo neles a inscrição de um real dado à observação e análise dos historiadores, ficando assim, prisioneiro das formas passadas de inscrição dos fenômenos que estuda. Não sendo capaz de repensar estas inscrições historicamente a partir de uma multiplicidade e da não linearidade dos fenômenos que estuda.

Na página 222 o autor informa que a impossibilidade da formulação de leis gerais para o desenvolvimento histórico a partir da observação de um fenômeno através da História é outro elemento central sublinhado como uma das marcas da micro-história praticada pelos autores do livro. O exemplo retomado por Gribaudi, a partir das sugestões de Giovanni Levi, procura mostrar como o advento do Estado Moderno, quando tratado a partir de uma perspectiva micro, mostra uma pluralidade de possibilidades e realizações históricas, diversas entre si. Mais a frente ainda na página 222 o autor diz que: O conceito de contexto adquire então uma centralidade importante, ainda que evidentemente não seja percebido da mesma forma que a história social de recorte macro o trata e conclui... A narrativa histórica não é apenas o relato do efetivamente acontecido porque necessário à razão histórica, mas também o relato das alternativas possíveis postas num jogo a ser decidido pelos atores históricos em questão.
Aqui Salgado afirma: Como não deixar de sentir aqui as marcas do trabalho: Processo e experiência: indivíduos, grupos e identidades em Turim no século XVII de Simona Cerutti, inspirado na obra do autor: E.P.Thompson, Seguindo a maneira sugerida por Thompson, a análise do historiador deveria cruzar elementos processuais de análise com trajetórias individuais, o que a autora procurou empreender em sua análise dos grupos profissionais na cidade de Turim, já na página 223 o autor afirma que inspirada em escritores ingleses Simona Cerutti, radicaliza sua análise no sentido de perceber, através do estudo das trajetórias individuais, as respostas históricas formuladas pelos protagonistas em ação, procedimento este que, segundo a autora, implicou numa reinterpretação do próprio processo geral, adotada, segundo o autor por: Sabina Loriga. No artigo intitulado “A biografia como problema” onde a aposta biográfica pode se constituir em importante viés para a interpretação dos fenômenos macro, a partir de uma perspectiva que obriga a uma reinterpretação das tradições herdadas de análise.

Nesse trecho do texto o autor trata da questão das biografias, segundo ele elas ficaram: longo tempo expulsas do campo da pesquisa histórica, todavia, Com o deslocamento do foco de análise das estruturas macro-sociais para as experiências vividas pelos atores históricos, à trajetória biográfica pode assim encontrar um lugar legítimo na reflexão dos historiadores, ele ainda destaca que: O olhar de Sabina Loriga busca recuperar na pesquisa biográfica sua dimensão heurística para o conhecimento da história.

Ao Final Manoel Salgado Guimarães conclui que: “Jogos de escalas. A experiência da microanálise” é leitura importante para compreendermos os caminhos da produção em nosso campo de conhecimento e, combinando uma reflexão teórica sofisticada à pesquisa documental, sublinha a importância desta dupla dimensão do trabalho do historiador, podendo também contribuir para uma crítica contundente dos diferentes matizes positivistas a que nossa disciplina esteve sujeita.


Fichamento Alan Cardosos
Graduando Curso de História
Universidade Federal da Bahia

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Fichamento do cap. "Sobre a micro-história", de Giovani Levi, p. 133-161, do livro organizado por P. Burke (1992), A Escrita da História: Novas perspectivas

Pág. 133. O autor inicia informando que “Não é por acaso que o debate sobre à micro-história não tem sido baseado em textos ou em manifestos teóricos”, e atribui a isso o fato de, segundo ele “A micro-história ser essencialmente um a prática historiográfica em que suas referências teóricas são variadas e”, em certo sentido, ecléticas.
Afirma ainda que “Muitos historiadores que aderem à micro-história têm-se envolvido em contínuos intercâmbios com as ciências sociais e estabelecido teorias historiográficas sem, contudo, sentir qualquer necessidade de se referirem a qualquer sistema coerente de conceitos ou princípios próprios”.
Pág.: 134: Aqui o autor define a micro-história como um “trabalho experimental”, não tem um corpo de ortodoxia estabelecida para dele se servir. Mais adiante ele afirma que: A ampla diversidade de material produzido demonstra claramente o quanto é limitada a variedade de elementos comuns. Ainda na pág. 134 ele atribui “algumas características distintas na micro-história que derivam dos anos 70, afirmando que “Não havia nada incomum nisso, pois os anos 70 e 80 foram anos de crise para a crença otimista prevalecente naquela época”, segundo ele “muitas das esperanças, incluindo do domínio da historiografia, estavam se comprovando inadequadas diante das imprevisíveis consequências dos acontecimentos políticos e das realidades sociais, longe de estar em conformidade com os modelos propostos pelos grandes sistemas marxista”. E conclui, “Ainda estamos vivendo as fases dramáticas (...) deste processo e os historiadores têm sido forçados a colocar novas questões sobre suas próprias metodologias e interpretações, pois, Os prognósticos de comportamento social estavam se com provando demonstravelmente errôneos e esta falência dos sistemas e paradigmas existentes requeria não tanto a construção de um a nova teoria social geral, mas um a completa revisão dos instrumentos de pesquisa atuais”.
Pág.: 135: Aqui o autor pontua que “Havia várias reações possíveis para a crise, e a micro-história em si nada mais é que uma gama de possíveis respostas que enfatizam a redefinição de conceitos e uma análise aprofundada dos instrumentos e métodos existentes”. O autor afirma também que surgiram ao mesmo tempo outras soluções consideradas por ele mais drásticas como: “o neo-idealismo ou mesmo para o retorno a uma filosofia repleta de irracionalidade.” O texto afirma que: “Os historiadores que aderiram à micro-história, em geral tinham suas raízes no marxismo (...) e possuíam pouca inclinação para a metafísica e que, apesar do fato dessas características estarem manifestadas (...) acredita que serviram para ancorar firmemente esses historiadores à ideia de que a pesquisa histórica não é um a atividade puramente retórica e estética”.
O trabalho da micro-história sempre se centralizado na busca de um a descrição realista do comportamento humano reconhece sua relativa liberdade, mas não fora, das limitações dos sistemas normativos prescritivos e opressivos. Assim, toda ação social é vista como o resultado de um a constante negociação, manipulação, escolhas e decisões do indiví¬duo, diante de uma realidade normativa que, (...) oferece muitas possibilidades de interpretações e liberdades pessoais. A questão é, portanto, com o definir as margens (...) da liberdade garantida a um indivíduo pelas brechas e contradições dos sistemas normativos que o governam.

Pág., 136: Aqui o autor localiza o papel da micro-história: “Assim, a micro-história possuía uma posição muito específica dentro da chamada nova história. Era mais importante refutar o relativismo, o irracionalismo e a redução do trabalho do historiador a um a atividade puramente retórica que interprete os textos e não os próprios acontecimentos. Mais adiante define: A micro-história como uma prática é essencialmente baseada na redução da escala da observação, em um a análise microscópica e em um estudo intensivo do material documental”.
Pág., 137 e 138: “Para a micro-história, a redução da escala é um procedimento analítico, que pode ser aplicado em qualquer lugar, independentemente das dimensões do objeto analisado”. O autor afirma que “Deseja (...) encarar mais de perto o problema, pois a ideia da escala ser um objeto de estudo é um a fonte de má interpretação para muitas pessoas” e para ilustrar cita o que ele chama de investida contra a história do autor Franco Ventura: “Estudar as crônicas de uma aldeia (...), é algo completamente sem sentido. O dever do historiador é estudar as origens daquelas ideias que moldam nossas vidas, não escrever novelas. É importante situar firmemente no centro de nossos estudos as raízes de nossa vida moderna.”. E conclui citando Geertz: Seria possível replicar isso, parafraseando Geertz: “Os historiadores não estudam as aldeias, eles estudam em aldeias”. Aqui o autor afirma que “a descrição de combinações de escala diferentes, (...) é importante no fenômeno social, ainda que apenas com o um meio de atribuir dimensões internas ao objeto de análise”. Entretanto, afirma ele, é até banal afirmar que as dimensões particulares do objeto de análise não refletem necessariamente a escala distintiva do problema colocado”.
Pág., 139, 140 e 141: O princípio unificador de toda pesquisa micro-histórica é a crença em que a observação microscópica revelará fatores previamente não observados. Alguns exemplos desse procedimento intensivo são:
O estudo das estratégias matrimoniais consanguíneas em um a pequena aldeia na região para revelar o universo mental dos camponeses do século dezessete.
O estudo das transações de terra de um a aldeia para descobrir as regras sociais do intercâmbio comercial que operam em um mercado.
Examinemos o último exemplo (...), a respeito á comercialização da terra é uma crença amplamente considerada que a precocidade e a frequência das transações de terra, ocorridas em muitos países (...), indicam a presença precoce do capitalismo e do individualismo. Dois elementos evitaram uma avaliação mais adequada deste fenômeno. Os historiadores foram induzidos ao erro por sua própria mentalidade mercantil moderna, que os levou a interpretar as quantidades maciças de transações monetárias de terra que encontraram em documentos (...) como evidência da existência de um mercado autorregulador. Curiosamente, ninguém observou ou deu importância ao fato de que os preços envolvidos eram extremamente variáveis, mesmo considerando-se as qualidades diferentes da terra. Apenas reduzindo-se a escala de observação a uma área extremamente localizada foi possível observar que o preço da terra variava segundo o relacionamento de parentesco entre as partes contratuais. Também foi possível mostrar que eram imputados preços variáveis a terras de igual dimensão e qualidade desse modo, tornou-se possível estabelecer que se estivesse observando um mercado complexo, em que os relacionamentos sociais e pessoais desempenhavam um papel determinante no estabelecimento do nível de preço, do prazo de pagamento e das formas pelas quais a terra trocava de mãos.
Esse exemplo parece-me particularmente revelador da maneira como a micro-história procede de modo geral. Os fenômenos previamente considerados como bastante descritos e compreendidos assumem significados completamente novos, quando se altera a escala de observação.
Pág., 141 e 142: O autor aqui afirma que A micro-história tem suas raízes no interior do círculo de pesquisa histórica, mas que existem muitas características que demonstram ligações entre a história à antropologia, “particularmente aquela “descrição densa” que Clifford Geertz encara com o a perspectiva adequada do trabalho antropológico”, mais a frente ele assim classifica o trabalho do etnólogo: Os escritos antropológicos são trabalhos imaginativos em que a habilidade do autor é medida por sua capacidade de nos colocar em contato com as vidas dos forasteiros e de fixar os acontecimentos ou o discurso social de forma a nos permitir examiná-los claramente. O poder do intérprete tornou-se, portanto infinito, imensurável, não suscetível de falsificação, e ainda: Qual é, então, o papel da teoria? Geertz nega que a abordagem interpretativa deva renunciar explicitamente às formulações teóricas. Entretanto, ele imediatamente prossegue dizendo “que os termos em que tais formulações podem ser moldadas são, se não inteiramente inexistentes, muito próximos disso”.

Pág., 143: Na etnografia, a função da teoria é promover um vocabulário, onde o que a ação simbólica tem a dizer sobre si mesmo, ou seja, sobre o papel da cultura na vida humana possa ser expresso. Assim, a teoria é “um repertório de conceitos e sistemas de conceitos muito gerais, elaborados no interior da academia”... Que se agita no corpo de uma etnografia de descrição densa, na esperança de transformar ocorrências simples em cientificamente eloquentes. Por isso, os conceitos são instrumentos frios tomados da bagagem da ciência acadêmica, eles são úteis na interpretação, mas é apenas nessa função que adquirem realidade concreta e especificidade.

Pág., 144: O autor fala sobre o papel da teoria “A teoria só tem um pequeno papel, com o subalterno, para desempenhar, em relação ao papel muito maior do intérprete, e ainda, “a única importância da teoria geral é uma parte da construção de um repertório sempre em expansão do material densamente descrito, tornado inteligível através de sua contextualização, que servirá para ampliar o universo do discurso humano”. Nesta página o autor fala ainda sobre as semelhanças entre antropologia interpretativa e a micro-história, mais destaca duas diferenças importantes, um a derivada do uso tradicionalmente mais intenso da pesquisa intensiva em pequena escala e a outra derivada de um aspecto que definiu com o um a espécie de limitação auto-imposta, Essas duas diferenças dizem respeito a trabalhos ha prática da racionalidade humana e à legitimidade de se fazerem generalizações nas ciências sociais. A antropologia interpretativa presume a racionalidade como um ponto de partida, como algo impossível de ser descrito fora da ação humana Entretanto, Geertz extrai dessas considerações conclusões extremas. A única coisa que podemos fazer é primeiro tentar procurar conhecer e depois tornar explícitos, através da descrição densa, os prováveis significados das ações. Aqueles que concordam com essa abordagem não acreditam que seja necessário questionar as limitações, as possibilidades e a mensurabilidade da própria racionalidade.

Pág., 145: Pode-se prosseguir e afirmar que a concepção de Geertz é revelada por algumas características que ele extraiu de Heidegger em particular a rejeição da possibilidade de explicação total e a tentativa de construir um a hermenêutica da escuta; ou seja, escutar a linguagem poética, em outras palavras, a linguagem apreendida no esforço de inventar novos significados, Geertz, com o Heidegger, considera esses modelos simbólicos na linguagem (...) da poesia, que representa a mais alta expressão da experiência humana da realidade. Geertz especificamente se refere à linguagem do mito, do ritual e da arte: “Para compor nossas mentes devemos saber como nos sentimos a respeito das coisas, e para saber como nos sentimos a respeito das coisas precisam os das imagens públicas do sentimento que apenas o ritual, o mito e a arte podem proporcionar”. Essa opinião é consistente com a teoria anti-hegeliana de Heidegger, de que o conhecimento do indivíduo não deve dissolver a existência de outros em si mesmo, mas antes que a função adequada do pensamento como um “classificador hermenêutico” é permitir que as outras pessoas permanecessem sendo as outras, o autor acredita assim que “que esse elo heideggeriano é essencial para um entendimento, tanto da força e da sutileza das interpretações, quanto da relativa debilidade das explicações dos mundos na antropologia interpretativa de Geertz”.

Pag., 146: O autor inicia falado sobre as peculiaridades das diferentes culturas: Sem dúvida deve ser aceito que, de um ponto de vista biológico, todos os homens possuem intelectos substancialmente iguais, mas esse intelecto é completamente dependente dos recursos culturais para seu funcionamento. Essa ênfase na cultura permite que se evite qualquer teoria da superioridade do homem civilizado sobre o homem primitivo. Também evita que se considere a ideia de que a cultura surge em alguns pontos ordenados nas fases revolucionárias. A cultura, definida com o a capacidade de pensamento simbólico, é parte da verdadeira natureza do homem. A cultura não é suplementar ao pensamento humano, mas seu ingrediente intrínseco. Não obstante, segundo Geertz, o problema a de se evitar o relativismo cultural “absoluto” assim tornando possível a comparação entre as culturas, não pode ser resolvido e não deve nem mesmo ser mencionado.

Pág., 147: Nesse trecho o autor pontua que: De fato, os seres humanos neces¬sitam de constantes estímulos afetivos e intelectuais, mas, ao mesmo tempo, esses mesmos estímulos requerem um controle cultural contínuo que os organize em um a ordem significativa e inteligível. No primeiro momento, o pensamento é organizado de acordo com as estruturas simbólicas públicas à mão e somente depois disso, ele se torna privado. Mas Geertz não pode ir além dessas considerações, pois um a investigação m ais específica no funcionamento da razão iria inevitavelmente introduzir implicações ameaçadoras de um a hierarquização de culturas.
Geertz defende o papel desempenhado pelo relativismo cultural na destruição do etnocentrismo, (...). “E encara todo o anti-relativismo como uma tendência perigosa para considerar algumas culturas como hierarquicamente superiores a outras”.

Pág., 148: Geertz não se declara relativista, mas antes um anti-relativista, no sentido de que estamos em um estágio, talvez transitório, em que apenas a descrição densa e a elaboração de um repertório de significados são possíveis, (...), Entretanto, afirma o autor não parece que sua redução de todo argumento racionalista a um renascimento potencial de conceitos hierárquicos de cultura seja defensável; e de fato é difícil considerar Gellner, Lévi-Strauss, Needham, Winch, Horton e Sperber, a quem Geertz se refere, todos com os expoentes de um a ordenação hierárquica de culturas. Por que os processos cognitivos. ou os universais cognitivos conduziriam apenas a um a conclusão etnocêntrica?

Pág., 149: Aqui o autor busca estabelecer as diferenças entre a micro-história e a antropologia interpretativa: “Parece-me que um a das principais diferenças de perspectiva entre a micro-história e a antropologia interpretativa é que a última enxerga um significado homogêneo nos sinais e símbolos públicos; enquanto a micro-história busca defini-los e medi-los com referência à multiplicidade das representações sociais que eles produzem”. (...), mais a frente continua: Tanto a quantidade de informação necessária para se organizar e definir a cultura, quanto à quantidade de informação necessária à ação, são historicamente mutáveis e socialmente variáveis. É esse, portanto, o problema que necessita ser enfrentado, um a vez que o arcabouço das estruturas públicas, simbólicas, é uma abstração. Pois, no contexto de condições sociais diferentes, essas estruturas simbólicas produzem um à multiplicidade de representações fragmentadas e diferenciadas; e será essas o objeto do nosso estudo.

Pág., 150: Aqui o autor trabalha com o autor Gertz numa perspectiva de crítica: Parece-me, por isso, não ser suficiente conduzir um a discussão geral do funcionamento simbólico, tendo-se como base uma definição geertziana de cultura com o um a busca infinita de informação. Acredito ser necessário tentar medir e formalizar os mecanismos de racionalidade limitada, uma racionalidade limitada em que a localização de seus limites varia com as várias formas de acesso à informação para permitir um entendimento das diferenças existentes nas culturas dos indivíduos, grupos e sociedades em várias épocas e locais. Mais a frente conclui: A qualidade um tanto alusiva do importante, mas incompleto sistema de Geertz negligencia esse objetivo.
E ainda: Existe prova (...), de que o repertório das descrições densas não tem um objetivo comparativo, mas permanece simplesmente um repertório do qual se extraem casos para esclarecimento, segundo regras não especificadas. Consequentemente, a interpretação tem, com frequência, permanecida em aberto, imponderável e limitada.

Pág., 150 e 151: Para exemplificar o tópico acima o auto cita o Grande massacre dos gatos: Alguns exemplos dessa imponderabilidade aparecem mais nos geertzianos do que no próprio Geertz. Um exemplo clássico parece-me ser o Great Cat Massacre, de autoria de Robert Darnton.
Dessa maneira, um repertório de conceitos é introduzido em um repertório de acontecimentos interpretados, na esperança de que eles operem juntos para que os acontecimentos simples possam se tornar cientificamente eloquentes e, opostamente, que conclusões de longo alcance possam ser extraídas da densidade de fatos simples. Esse método com frequência resulta em um a história cultural sem análise social, ou em um a análise social extremamente estereotipada extraída de um a história cultural intensivamente investigada.

Pág., 152: Aqui o autor fala sobre pesquisa histórica, e afirma que a mesma não tem a ver apenas com a comunicação dos resultados em um livro. “A micro-história dirigiu especificamente o problema da comunicação e tem estado bastante consciente de que a pesquisa histórica não tem a ver apenas com a comunicação dos resultados em um livro”.
Em geral, os problemas de prova e demonstração em história, por meio do relato de momentos concretos, têm uma relação próxima com as técnicas de exposição. Não é simplesmente um problema de retórica, pois o significado do trabalho histórico não pode ser reduzido à retórica, mas especificamente um problema de comunicação com o leitor, que nunca é um a tabula rasa, e por isso sempre coloca um problema de recepção.

Pág., 153: Nesse memento o autor fala das duas principais funções da narrativa: a função particular da narrativa pode ser resumida em duas características:
A primeira é a tentativa de demonstrar, através de um relato de fatos sólidos, o verdadeiro funcionamento de alguns aspectos da sociedade que seriam distorcidos pela generalização e pela formalização quantitativa usadas independentemente.

A segunda característica é aquela de incorporar ao corpo principal da narrativa os procedimentos da pesquisa em si, as limitações documentais, as técnicas de persuasão e as construções interpretativas. E em seguida fala sobre a construção do processo: O processo de pesquisa é explicitamente descrito e as limitações da evidência documental, a formulação de hipóteses e as linhas de pensamento seguidas não estão m ais escondidas dos olhos do não iniciado. O leitor é envolvido em um a espécie de diálogo e participa de todo o processo de construção do argumento histórico.

Pág., 154: A abordagem micro-histórica dedica-se ao problema de como obtemos acesso ao conhecimento do passado, através de vários indícios, sinais e sintomas. Esse é um procedimento que toma o particular com o seu ponto de partida e prossegue, identificando seu significado à luz de seu próprio contexto específico, o autor fala ainda sobre o funcionalismo: A teoria de contexto m ais coerente é a funcionalista, cujo aspecto mais característico talvez seja aquele de se focalizar o contexto para explicar o comportamento social. Para o funcionalismo, não são tanto as próprias causas do comportamento que constituem os objetos de análise, m as antes a normalização de um a forma de comportamento em um sistema coerente que explica aquele comportamento, suas funções e o modo como ele opera.

Pág., 155: Aqui o autor defende novamente a redução na escala: A redução da escala é um a operação experimental (...), porque ele presume que as delineações do contexto e sua coerência são aparentes, e revela aquelas contradições que só aparecem, quando a escala de referência é alterada.

Pág., 156: Outro conceito de contextualização é aquele que entende o contexto cultural com o um processo de se colocar um a ideia dentro dos limites prescritos pelas linguagens disponíveis, Esta teoria encara o contexto com o sendo ditado pela linguagem e pelos idiomas disponíveis e utilizados por um grupo particular de pessoas em um a situação particular para organizar, por exemplo, suas lutas de poder. Essa escola de pensamento tem tido grande influência sobre a teoria social em si e tem iniciado tantas discussões que parece supérfluo voltar a expor seus argumentos. Entretanto, a perspectiva da micro-história é, mais um a vez, diferente, porque uma importância fundamental é dada às atividades, às formas de comportamento e às instituições que proporcionam o arcabouço dentro do qual os idiomas podem ser adequadamente entendidos, e que permitem um a discussão significativa daqueles conceitos e convicções que de outra maneira permaneceriam hermeticamente fechados em si mesmos, sem um a adequada referência à sociedade.

Pág., 157 e 158: A micro-história tem demonstrado a falibilidade e a incoerência dos contextos sociais, com o convencionalmente definidos: observe-se, por exemplo, as críticas feitas por M. G ribaudi33 em relação à delimitação das vizinhanças da classe trabalhadora. Gribaudi demonstra que as solidariedades podem estar baseadas, não tanto na similaridade da posição social, mas antes na similaridade da posição nos sistemas de relacionamentos. Essas observações colocam problemas adicionais, o que é necessário considerar brevemente. Em primeiro lugar, o problema do contraste entre o conhecimento individualizado e o generalizado - debate recorrente entre os historiadores sociais. A micro-história tenta não sacrificar o conhecimento dos elementos individuais a um à generalização mais ampla, e de fato acentua as vidas e os acontecimentos individuais. M as, ao mesmo tempo, tenta não rejeitar todas as formas de abstração, pois fatos insignificantes e casos individuais podem servir para revelar um fenômeno mais geral. O problema é m ais aquele de com o podem os elaborar um paradigma que dependa do conhecimento do particular, embora não rejeitando a descrição formal e o conhecimento científico do próprio particular.

Pág., 159: Como esta tendência a identificar a formalização com a quantificação há muito tempo tem sido predominante, a história ficou paradoxalmente atrás das outras ciências sociais. Parece-me que a micro-história se movimenta mais firmemente em direção aos ramos não quantitativos da matemática, para apresentar representações mais realistas e menos mecanicistas, ampliando assim o campo da indeterminação, sem necessariamente rejeitar as elaborações formalizadas.
A o se decidir trabalhar com um quadro diferente, m ais com plexo e realista, da racionalidade de atores sociais e ao se considerar a natureza fundamentalmente entrelaçada dos fenômenos sociais, torna-se de imediato necessário desenvolver e utilizar novos instrumentos formais de abstração. O campo permanece bem aberto para a exploração dos historiadores.

Pág., 160: Aqui o autor define as características da Micro-história: São as questões e posições comuns que caracterizam a micro-história: a redução da escala, o debate sobre a racionalidade, a pequena indicação com o um paradigma científico, o papel do particular, a atenção à capacidade receptiva e à narrativa, uma definição específica do contexto e a rejeição do relativismo. Mas a frente o autor traz uma definição de Ravel a micro-história: Revel define a micro-história com o a tentativa de estudar o social, não com o um objeto investido de propriedades inerentes, mas com o um conjunto de inter-relacionamentos deslocados existentes entre configurações constantemente em adaptação. E continua: A micro-história tentou construir um a conceituação mais fluida, um a classificação menos prejudicial do que constitui o social e o cultural, e um arcabouço de análise que rejeita simplificações, hipóteses dualistas, polarizações, tipologias rígidas e a busca de características típicas.
Com referência à definição de Revel, o autor salientou mais claramente o impulso anti-relativista da micro-história e as aspirações de formalização que a caracterizam, que em sua opinião.
Pág., 161: Ao fim ele afirma: Não sei se esta apresentação da micro-história é confiável. Gostaria de apresentar, em termos mais ou menos bem caracterizados, um grupo de pessoas que na verdade tem se envolvido em muitos e variados debates na história social italiana nos anos 70 e 80. Talvez eu devesse ter explicado, de modo mais amplo, as várias opiniões diferentes envolvidas e as referências a um debate histórico que se estende muito além do grupo italiano. Devo, por isso, esclarecer as coisas informando o leitor de que meus princípios diretivos são fortemente pessoais; este é muito mais um auto-retrato que um retrato de grupo. Eu não poderia ter feito de outra forma e por isso advirto o leitor ser este o caso.















































Fichamento e Organização: Alan Cardoso Ferreira Santos

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Dia da Conciencia Negra, Mais Necessário do Que Sempre

Em função da "passagem" do dia da Consciência Negra, no ultimo dia 20/11/17, data que se recorda Zumbi, o líder do maior quilombo Brasileiro o do Palmares e que foi escolhida, pelo movimento Negro para servir de reflexão sobre a situação atual e histórica das populações Negras no Brasil, foi possível constatar o numero de posicionamentos contrários a data, comentários presenciais e em Rede Sociais que sugeriam uma reflexão “mais ampla” a tal consciência humana, inclusive, pasmem, pessoas negras. Gente, confesso que essas manifestações mim surpreenderam, é só olhar em volta, observar... Não é possível que diante de uma sociedade cada vez mais segregadora onde os "postos" mais altos da sociedade são claramente ocupados por pessoas brancas que igualmente residem nos melhores bairros e condomínios, usufruem da complacência da justiça e apesar dos avanços ainda são maioria nas universidades, narrativas que claramente indicam retrocesso tenham ressonância. A cada dia vejo que nosso país precisa de historiadores, pessoas que contextualizem e historicizem os problemas sociais e em especial a questão do racismo contra pessoas afrodescendentes, Atitudes como a do “jornalista” Willian Waack, não são isoladas, indicam claramente a confirmação de algo previsto pelo escritor Pernambucano Joaquim Nabuco no Livro “Minha formação”, segundo ele a "escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional". O diplomata Pernambucano estava correto, as chagas da escravidão ainda estão abertas clamando por reparação e reflexão. Até mesmo os Jornais, impregnados de “ideologia” trazem dados estarrecedores sobre a situação de desigualdade do povo negro no Brasil... O Correio da Bahia, neste dia 21 estampa: Negros ganham quase 40% menos do que brancos, dados cedidos pelo IBGE... Fica a questão, diante de fatores concretos, como o informado pelo jornal mencionado onde negros recebem por seus trabalhos quase metade que os brancos onde está a consciência humana?


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Bairro da Paz, Antiga Malvinas Ocupação Resistência e Luta.

Este documento é um Esboço de Proposta de Pesquisa de Conclusão da Disciplina de Introdução ao trabalho Acadêmico Do Curso Noturno de Graduação em História Da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia UFBA.

Abaixo Link do Material em PDF.

https://drive.google.com/file/d/0B6TWeLVvr6jjSEtJb21sVXoxZlE/view?usp=sharing


Alan Cardoso Ferreira Santos
Graduando em Licenciatura em História Pela UFBA.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O Comercio As Trocas e o Sistema do Dom Entre os Fenícios.

Trabalho Apresentado em Aula de História Antiga na UFBA (Noturno) 07/08/2017. Apresentação foi baseada nos estudos dos autores:

Marcel Mauss. 1872-1950, escritor, sociólogo e antropólogo francês. Marcel Mauss era sobrinho de Émile Durkheim, A obra: Ensaio Sobre o Dom foi publicada pela primeira vez em 1925. A Obra é reconhecida como a mais antiga e importante sobre a reciprocidade o intercâmbio e a origem antropológica do contrato.
Maria Cristina Kormikiari.
Doutora em ciências, na área de arqueologia pela faculdade de filosofia, letras e ciências humanas da USP. Pós Doutoranda do Museu de Arqueologia e Etnografia da USP.

Fenícios


Chamados Sidônios no Antigo Testamento e de Fenícios pelos Gregos. Os Fenícios estabeleceram-se na costa mediterrânea por volta de 2500 a.C. Este povo era atípico em muitos aspectos, a começar por sua origem praticamente desconhecida. Segundo Heródoto (484 a.C - 430 a.C.), teriam vindo do Oceano Índico, o que contradiz as hipóteses da maioria dos estudiosos modernos, Os documentos assinados pelos próprios fenícios não elucidam essas dúvidas, pois sempre que falavam de si faziam referência somente ao endereço para o qual haviam mudado. No começo de sua história desenvolveram-se sob a influência das culturas suméria, acádia e da vizinha Babilônia.

Localização Geográfica, Rotas Comerciais



Legado

Foram Muitos os Legados deixados por esse povo entre eles podemos citar:
*Alfabeto Fenício:


Acredita-se que o alfabeto grego seja baseado no alfabeto fenício, bem como os alfabetos aramaico, hebraico e arábico, assim como diversos outros.


*Embarcações Fenícia:


O Birreme é um navio fenício considerada uma das melhores embarcações da Antiguidade. Tinha duas ou três fileiras de remos - daí o nome birreme ou trirreme e até 35 metros. Foi copiado por outros povos, que o usaram para dominar a navegação no Mediterrâneo.



Principais Cidades
Ugarit:
Foi uma antiga e cosmopolita cidade portuária, situada na costa mediterrânea do norte da Síria,



Biblos:
situa-se na costa mediterrânica do atual Líbano, a 42 quilômetros de Beirute. É um foco de atração para arqueólogos devido às fases sucessivas de vestígios arqueológicos resultantes de séculos de ocupação humana.


Tiro:
Localizada na costa do mar Mediterrâneo atual Líbano, era uma das mais importantes cidade Estado do território da Fenícia.


Sidon:
Situa-se na costa do mar Mediterrâneo, a cerca quase quarenta quilômetros ao Norte de Tiro.



Cartago
(Norte da África): Cartago foi uma potência do mundo antigo, disputando com Roma o controle do Mar Mediterrâneo. Dessa disputa originaram-se as três Guerras Púnicas, após as quais Cartago foi destruída.




Os Fenícios Comercializavam uma Infinidade de Produtos, Entre Eles Podemos Destacar:
* Azeite de oliva
* Vinho.

Representação de Ânfora, Utilizada Para Armazenamento e Transporte de Vinho e Azeite Fenício.














* Jóias
* Tecidos Tingidos
* Armas
* Cereais
* Vidros.
* Cedro do Líbano
* Marfins.
* Papiro















Artigo da Maria Cristina Kormikiari


Características

Os Fenícios sempre foram conhecidos pela sua habilidade no comércio. Homero em a (Odisséia, XV,vv.415-482), foi um dos primeiros a nos relatar esse espírito de “comerciante nato” dos Fenícios... Ao reproduzir o diálogo entre Odisseu e Eumeu, o porqueiro...

Talvez já tenhas ouvido falar duma ilha de nome Síria, ao norte de Ogígia, do lado onde o sol se esconde [ .. Há duas cidades ali e todo o território esta dividido em duas partes. Sobre as duas reinava meu pai, Ctésio, filho de Ormeno, semelhante aos imortais. Apareceram ali uns FENICIOS, navegadores famosos, gente cúpida; traziam em seu negro barco uma infinidade de quinquilharias. Tínhamos em casa de meu pai uma mulher fenícia, bela, alta, hábil em finos trabalhos; os fenícios astuciosos a iludiram. Quando ela lavava roupa perto do bojudo barco, um deles deitou-se, primeiro, com ela, nos laços do amor, coisa que engana o juízo das mulheres, mesmo das honestas; depois, perguntou-Ihe quem era e donde vinha. Ela prontamente Ihe apontou a casa de meu pai: Prezo-me, disse, de ser de Sidon, rica de bronze, e sou filha de Áribas, dono de rios de dinheiro; raptaram-me, porém, piratas táfios, quando voltava do campo; eles trouxeram-me para aqui e levaram-me a casa deste homem, que pagou bom dinheiro. Tornou-Ihe, então, homem que a possuía ocultamente: Gostarias de voltar conosco para tua casa, rever teu pai e tua mãe e sua alta mansão? Com efeito, ainda vivem e passam por abastados Volveu-lhe a mulher a seguinte resposta: Bem poderia ser, se vos, marinheiros, quisésseis abonar vossa palavra com juramento de levar-me sã e salva a minha casa. [ ] depois de jurarem e solenizarem o juramento, volveu-Ihes a mulher a seguinte resposta: Silencio, agora; que nenhum de vossa tripulação fale comigo quando me encontrar na rua [...] Guardai na memória que vos digo e apressai o escambo das mercadorias Quando, enfim, o barco estiver repleto de viveres, mandai-me um aviso ao solar; eu trarei o ouro que estiver a mao. De bom grado daria ainda outra paga da passagem. É que sou, na mansão, ama do filho do fidalgo, menino assaz vivo [... ] eu traria a bordo e por ele alcançaríeis um preço altíssimo [...]'



Este autor, através desse trecho de sua obra também atribui aos Fenícios a característica de sagazes e espertalhões, fama que acompanhará esse povo ao longo de toda a historiografia Grega e Romana.

Princípio

Os modos e processos de trocas empregados pelos fenícios remontam o período do bronze no Mediterrâneo Oriental, antes inclusive da concentração de cidades semitas na costa da Anatólia, próximo do ano 1200 a.C, anterior portanto à formação do que pesquisadores atualmente denominam, seguindo o termo grego de: Fenícia.

Uso de Moeda

As cidades Fenícias, assim como Cartago, passa boa parte de sua história sem adotar uma economia monetarizada, mesmo mantendo intenso contato com sociedades que já ás utilizavam. Os Fenícios adotariam a moeda no século V a.C e pelos Púnicos, pois, como vimos anteriormente a partir do século VI a.C a historiografia moderna ocidental impôs esses termos, todavia trata-se ainda da fenícia.

Vocação

Segundo a autora os Fenícios utilizaram-se de uma extensa rede de contatos e de um elaborado sistema de trocas para realizar o que chamou de “vocação máxima desse o povo”: O Comércio.

Já a partir do século XI a.C os fenícios empreenderam, através da obtenção do monopólio de matérias primas, uma sólida política comercial, expansionista e de dominação de mercados estrangeiros

O Sistema de Troca Fenício

Constantes Mudanças

Os fenícios sempre foram conhecidos pelos antigos e até mesmo pela historiografia pela sua intensa atividade comercial, entretanto segundo a autora, O período dessas intensas atividades comerciais foi “relativamente pouco” sendo possível delimitá-lo entre os séculos XI e VII a.C, quatro séculos portanto, período onde ocorreram diversas mudanças na: mão de obra, nos quadros sociais, nos circuitos nos quais eles agiam e nos objetos comercializados.

Período Pré-Colonial

Os séculos de XI a VIII a.C são tratados pela historiografia como período pré-colonial Fenício, Período, segundo o texto de visitas a territórios novos com o intuito de realizar colonização em momento posterior.
O rodapé do texto observa que de acordo com estudos até agora desenvolvidos não há evidencias de que cidades fenícias comercialmente ativas como Tiro, tivessem o objetivo de estabelecer colônias nos locais de contato comercial no ocidente do mediterrâneo.
Invasões e seus Impactos

O profeta Ezequiel (XXVII, 12-24) narra com detalhes as abundantes localidade s que Tiro, cidade fenícia negociava... O Texto bíblico que tem o sugestivo título: CÂNTICO FÚNEBRE SOBRE A QUEDA DE TIRO, narra o circuito comercial dessa cidade que manteve esse tipo de relação com inúmeras regiões do mediterrâneo oriental e da Ásia.

Informações complementares informam também que nos séculos XI a VII a.C, já identificados como pré-coloniais os Fenícios enfrentaram restrições em suas atividades imposta por reinos conquistadores. Esses impactos se diferenciavam nas atividades Fenícias de acordo com o povo conquistador. Os Assírios não exerceram domínio opressivo, as cidades fenícias puderam manter suas atividades comerciais mediante pagamento de impostos os persas, por sua vez, tiraram totalmente a autonomia comercial fenícia no final do século IV a.C., entretanto achados como vasos áticos atestam que produtos estrangeiros continuavam a chegará Fenícia

Natureza das Trocas

Relato de Ounamon:

Escrito em papiro egípcio do século XI a.C relata a história de Ounamon enviado egípcio a corte do Rei Shekerbaal de Biblos. O texto narra as desventuras de Ounamon encarregado de comprar madeira Fenícia para construção do barco sagrado do deus Ammom e que passa dificuldades até ser aceito como interlocutor. Shekerbaal em princípio se recusa a tratar com Ounamon e o faz apenas quando o Egito lhe envia uma série de presentes, ou seja quando sua posição é reconhecida e ele vê-se na obrigação de retribuir. (Relato de Ounamon é uma obra literária).
Transação entre Hiran Rei de Tiro e Salomão Rei de Israel.
Ao enviar dois servos para prestar homenagem a Salomão que acabara de ascender ao trono no lugar do Rei David. Salomão mandou dizer a Hiram: Você sabe que meu pai não conseguiu erguer um templo em nome do Senhor por causa das guerras lançadas a ele por seus inimigos... ... Mas agora o Senhor mim trouxe paz em todas as partes... ... Tenho portanto o desejo de construir um templo em nome do Senhor, meu Deus... ... Mandem então que cortem para mim cedros do Líbano: Meus servos se unirão aos seus. A esses darei a recompensa que você exigir pois você bem sabe que entre meu povo não há ninguém capaz de cortar madeira como os sidônios. III Reis (V, 1-11)

Pesquisa e Organização Alan Cardoso
Graduando em História Pela UFBA (Universidade Federal da Bahia